Precisamos falar sobre o Alentejo – Parte III: Estremoz

Último dia de viagem pelo Alentejo e o destino que escolhemos para essa terça-feira foi a pequena cidade de Estremoz, com cerca de oito mil habitantes. Como tínhamos apenas três dias na região, dedicamos o primeiro dia a Évora, o segundo a Monsaraz e o terceiro a Estremoz. O Alentejo, como citei no primeiro post da viagem, é uma região grande (para os padrões europeus rs), e pelo tempo que dispúnhamos, resolvemos ficar na parte central, muito embora tenha ficado uma vontade imensa de conhecer também as partes norte e sul. Para quem se interessou pela região, acredito que  em uma viagem de uma semana isso seja possível, sem muita pressa.

Pois vamos então a Estremoz, destino escolhido para o nosso útlimo bate-e-volta, por ficar há pouco menos de 50km de Évora, mas também por duas razões: a vinícola Tiago Cabaço Wines (o nome é engraçado, né? hahaha) e o Restaurante Mercearia Gadanha.

Depois de zapear pela internet em busca de quais vinícolas visitar no Alentejo, a Tiago Cabaço me despertou muita curiosidade: é uma vinícola jovem, moderna, gerida por um proprietário de apenas 32 anos, mas que já conta com grande respeito e premiações no mundo do vinho. Ainda no Brasil, agendei uma visita por e-mail, tendo sido muito bem atendida. Escolhemos a prova de 12€, em que são servidos 4 vinhos à escolha do visitante, dentre todos os da adega, mas havia também a opção de uma prova de 6€, em que você escolhia 3 vinhos das linhas básica e intermediária da vinícola.

Chegamos à vinícola às 10h30 e para nossa felicidade a visita seria exclusiva, só nós dois, taí a vantagem de viajar em baixa temporada e no meio da semana, hehe! A atendente nos contou a história do Tiago, que é filho de um casal de produtores tradicionais de vinho na região. Ok, ele deve ter tido uma ajudinha dos pais, nem que seja em relação ao know-how, mas não dá pra tirar o mérito do garoto, que com vinte e pouco anos quis um terreno só pra ele, para produzir seus próprios vinhos, que possuem rótulos modernos e minimalistas, nomes modernos (.com, .blog, .beb… quer nomes mais atuais?) e uma qualidade incrível! A vinícola é lindíssima, com instalações ultra-modernas, tem um prédio com design super moderno (já falei moderno mil vezes, né? Mas é o que mais me vem em mente quando penso nessa vinícola), fica aos pés da cidade de Estremoz, com vista para o castelo (acho que todas as cidades alentejanas têm um castelo rs). Ah, o Tiago produz também uma marca de gim. Queridos, mais moderno que isso, impossível! E sobre nossa recente paixão pelo gim, eu conto no post de Lisboa, mais pra frente  #ginlovers .

Pois bem, a degustação foi super gostosa, sem pressa, amamos os vinhos e trouxemos pra casa um branco da linha .com, que custou incríveis 4€ (custo-benefício surreal) e um tinto bivarietal (produzido com as duas melhores castas de uva do ano da colheita) da linha blog, que é a linha mais premiada (e cara) da vinícola. Aqui resolvemos fazer uma pequena extravagância e pagar 25€ num vinho que adoramos (em terras tupiniquins, custa 240 temers), e que possui alto potencial de guarda e envelhecimento, vamos abrir, tipo assim, quando nosso primeiro filho nascer, hehe! Valeu muitíssimo a visita, arrependi mortalmente de não ter comprado mais vinhos da linha básica e de também não ter trazido o gim, mas vamos às fotos.

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Área de produção: tudinho em aço inox
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Sala de degustação: olhem essa vista!
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Os vinhos blog
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Entrada do prédio, que tem formato em meia lua, design que se repete em alguns rótulos também
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Parte das uvas utilizadas na produção e o Castelo de Estremoz lá no alto da montanha, ao fundo
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Gin “Friends”, também produzido pelo Tiago

 

Após a visita, paramos o carro num estacionamento público no centro de Estremoz e subimos até a parte da cidade amuralhada, onde fica o castelo. É bonitinho, mas depois de visitar Monsaraz, preciso ser sincera, você não se impressiona muito, rs. Estava tudo bem vazio, tiramos umas fotos e descemos até o Largo Gadanha, onde há umas construções históricas e uma fonte linda e enorme, toda em mármore. Aliás, mármore é mato por lá, tem em todo lugar, muito lindo.

Após essa breve caminhada, já era hora de almoçar, né? Nossa escolha, como disse, já veio mentalizada (felizmente!) desde muito antes: a Mercearia Gadanha. O lugar tem esse nome por, além de ser um restaurante surreal, vender muiiitos vinhos, queijos, pães, embutidos e outras iguarias típicas alentejanas. Tem uma decoração fofa, e as mesas ficam espalhadas no meio do mercado e da adega, de forma que você pode ir namorando os vinhos e produtos, o que só aumenta a vontade de comer e beber tudo! Sobre o restaurante, que possui uma chef brasileiríssima, vou resumir dizendo que foi a nossa melhor refeição no Alentejo! Comemos pães e azeite (claro), queijo de cabra, os melhores e mais cremosos croquetes que já provei (nem os que comemos na Espanha ganham desses), um prato lindo e gostoso de morrer e uma sobremesa de chocolate dos deuses! Ah, teve vinho e cerveja acompanhando também, mas só pra acompanhar mesmo, pois os 50km de volta ainda nos aguardavam, com o último pit stop do dia lá em Évora, a Vinícola Cartuxa. Fotos e fotos da Mercearia na sequência, sendo as últimas da Vinícola Cartuxa, onde, infelizmente, não rolou visita por incompatibilidade com os nossos horários, mas rolou comprinhas de vinhos, é claro.

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Gostaria de finalizar dizendo: se você se interessou pelo Alentejo, vá! Mas vá com certeza, pois é muito mais lindo ao vivo. E tente chegar antes que fique muito turístico, se possível. Foi certamente uma das melhores viagens que já fizemos: paisagens lindíssimas, tranquilidade, povo acolhedor, ótimos vinhos, comida sensacional e preços muito razoáveis para a Europa (até para o Brasil viu?). Amamos e esperamos retornar um dia. Agora vou parar de escrever e abrir um vinho que veio na mala. Deu saudades…

  • Ah, só um p.s.: aguardem um pouquinho, pois para encerrar esse mini-roteiro ao Alentejo (nem tão mini assim, hehe), vai ter vídeo reunindo os melhores momentos da viagem!!!   

Precisamos falar sobre o Alentejo – Parte I: Évora

Já vou iniciar este post me declarando: eu e Thiago somos apaixonados por Portugal, perdidamente! A comida, o povo, a beleza, o aconchego, os preços razoáveis, os vinhos e, recentemente, até mesmo as cervejas. A semana do dia 13/11/16 marcou nossa terceira ida ao país. Da primeira vez visitamos apenas Lisboa, da segunda, Porto e novamente Lisboa e agora fizemos um trecho do Alentejo e, adivinhem, Lisboa again rs. Mas vamos começar pelo Alentejo, mais precisamente falando sobre a maior cidade da região, Évora. Cadê o emoticon de suspiros? Gente,  o Alentejo é muiiiiiiito lindo, é de morrer de lindo! Vem com a gente!

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Descemos no aeroporto de Lisboa num domingo cedinho, alugamos um carro (reservado aqui do Brasil) e rumamos para Évora, onde montamos base por três noites. A estrada é ótima e muito tranquila, tirando o trecho próximo de Lisboa, é quase deserta, em uma hora e meia você estará em Évora, a capital do Alentejo, região que cobre 1/3 do país e abriga apenas 5% da população (entendeu as estradas vazias?). Ficamos hospedados no Moov Hotel, que indico fortemente pela localização, estrutura, preço e garagem, foi certeira a escolha.

Évora é uma cidade com cerca de cinquenta mil habitantes, e você pode perfeitamente caminhar à pé pelas suas principais atrações, sendo a melhor delas apenas caminhar, perder-se por suas ruelas, praças e travessas (qualquer semelhança com as cidades históricas mineiras não é pura coincidência, rs). Em apenas um dia você consegue visitar os principais pontos turísticos, sem deixar de incluir no roteiro um almoço preguiçoso regado a vinho (claaaro!) e à maravilhosa comida alentejana, mas como queríamos nos hospedar numa cidade com maior movimento noturno, passamos três noites na cidade. Tiramos o dia de domingo para conhecer Évora, e os outros dois dias para bate-voltas nos arredores.

As atrações que visitamos e gostamos muitíssimo na cidade foram: O Templo Romano, que data do século I d.c., e é o símbolo maior da cidade. Sim, os romanos já ocuparam a região um dia, aliás, onde mesmo que não né? A Sé Catedral de Évora, que fica colada ao templo, vale muito pelo seu interior e pela subida ao telhado, de onde se tem uma vista lindíssima da região. A Capela dos Ossos, que fica no interior da Igreja de São Francisco, e é “decorada” com cerca de 5 mil caveiras humanas, isso mesmo que você leu e, abaixo, mostramos retratado. Nessa mesma igreja, há uma exposição super fofa de presépios, feitos por vários artistas portugueses e de outras nacionalidades também.

Dito isso, bora começar a comer e beber, né? Já era tempo, ora pois pois. Vou listar abaixo os sítios (licença, quero falar como os portugas) que visitamos e, no final, vou indicar outros que estavam na lista, mas que não deu tempo de conhecer.

Tasquinha do Zé: tasquinha é o nosso boteco preferido da esquina, onde mal cabem dez pessoas, mas onde se serve comida simples, boa e você é atendido pelo dono. A do Zé foi isso aí, almoçamos lá assim que chegamos no domingo, cardápio num quadro de giz, vinho da casa, bacalhau e formidáveis migas de tomate com cação. Precisa mais? Então manda mais um copo de vinho (lá eles dizem copo e não taça), uma imperial (como eles chamam o chope de tamanho padrão) e, enquanto isso, peça para a garçonete simpática te explicar o que são migas.

Fialho: um clássico de Évora, dizem que FHC o citou como o seu restaurante preferido no mundo. Quando a fama é muita, a gente vai com expectativa alta e um certo medo de se decepcionar, mas aqui isso não aconteceu, felizmente! Alguns garçons foram até pretensiosos de início (chegamos sem reservar), mas depois já estavam rindo, conversando e servindo ali um pata negra dos céus com pão alentejano do Éden. Um adendo: pata negra é como é conhecido o presunto feito com a carne do porco preto, típico da região do Alentejo, e que se alimenta de bolotas, frutos de árvores abundantes na região, como o sobreiro e a azinheira. A bolota dá um sabor especial à carne do porco, com a qual são feitos embutidos muitíssimo apreciados e que chegam a custar preços estratosféricas por aqui. Resumo: morremos de comer porco preto em Portugal e trouxemos na mala também, hehe! Voltando ao Fialho: carta de vinhos bem vasta, as melhores costeletas de cordeiro que já comemos na vida e preços justos, no mesmo patamar de outros restaurantes da cidade, alguns não tão bons quanto, vale dizer.

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Salão de entrada e balcão do Fialho

Café Alentejo: restaurante super tradicional, que figurou nas indicações de muitos locais com quem conversamos. O ambiente é tradicional, mas sem requinte, e eles possuem uma adega surreal, que, segundo o garçom, confere a eles o título de restaurante com a maior carta de vinhos de Évora. Bebemos um vinho branco da Herdade da Malhadinha Nova, que pra mim foi o melhor branco que bebi na viagem, o Monte da Peceguina. Essa herdade (fazenda) fica na parte sul do Alentejo e além de produzirem vinhos, possuem um hotel-fazenda no local, que dizem ser fabuloso. Comemos bochechas de porco preto como prato principal, porém as entradas se destacaram mais: pão alentejano com bastante azeite (simples assim!) e ovos com aspargos e farinheira (uma espécie de linguiça regional).

Enoteca Cartuxa: mais um local que eu temia pela fama. A Cartuxa é a vinícola mais famosa de Évora (quiçá do Alentejo), eles produzem o lendário pêra-manca tinto (dá um google pra saber mais sobre esse vinho) e outros vinhos e azeites conhecidos aqui no Brasil. Inauguraram este ano um resturante/loja bem próximo à catedral de Évora, com ambiente clean, mais requintado, porém com um balcão enorme pra você que pretende apenas provar uma taça de vinho e tapear. Pois bem, fomos lá conferir e, gente, que delícia de experiência! Eles possuem aqueles sistemas moderníssimos de armazenagem de garrafas para serviço em taça, mas também vendem garrafas inteiras, inclusive do mencionado pêra-manca. Eu super recomendo passear entre uma taça e outra, seguindo dicas de harmonização dos garçons, que foram extremamente educados e solícitos. Comemos muitíssimo bem, mesmo sem provar os pratos principais, pois optamos por experimentar várias entradinhas, seguindo a dica de um dos garçons e ó, recomendo demais fazer isso. Enoteca Cartuxa já pra sua lista!

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Mercearia do Largo: uma vendinha deliciosa, pequenina, recheada de produtos locais (queijos, vinhos, temperos, embutidos, geleias…) e onde você também pode sentar, beber um copo de vinho, petiscar uma tábua de frios ou… beber uma cerveja de bolota! Sim, encontramos aqui uma cerveja artesanal alentejana feita com bolotas. Delícia, viu?! A proprietária é super atenciosa e foi aqui que compramos uns produtinhos locais pra trazer na mala. Ah, vale também visitar o mercado municipal pra isso.

Mojo: dica da dona da mercearia acima, foi aqui onde encontramos a maior variedade de cervejas em Évora! O local é um restaurante, que no porão tem também um pequeno pub, ótimo pra assistir jogos de futebol, onde há várias cervejas expostas em prateleiras (e geladas também) e umas quatro opções on tap. Belgas, inglesas, espanholas, escocesas, algumas nacionais… Pois é, achou que a gente ia ficar só no vinho, né? Enganou-se, caro leitor.

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Cervejas no Mojo

Winetime 93: winebar coladinho no nosso hotel, frequentado por jovens e universitários, em sua maioria. Tava lotado em plena segundona! Super descontraído, com várias opções de vinhos em copo, cervejas, drinks, alguns belisquetes e muitos fumantes, rs. A gente adorou finalizar a noite por lá, mas o cigarro pode incomodar um pouco (bota as roupas pra tomar ar na janela do hotel e pronto, hehe!).

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Cara de feliz após muitos copos de vinho 🙂

Vou terminar citando dois locais delícia pra tomar um café: Pastelaria Conventual Pão de Rala, que é pequenina e frequentada por muitos locais, aqui você encontrará doces e mais doces da confeitaria portuguesa (ovos, ovos e ovos, de vez em quando castanhas e abóbora também). E a The Bakery Lounge, que é uma padaria toda moderninha, serve sucos, cafés, sanduíches, quiches e até pratos, comi uma bruscheta deliciosa e gigante lá!

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“A Bruscheta” da The Bakery Lounge

As tascas que não conseguimos ir, mas são muito famosas lá: Botequim da Mouraria e Tasquinha do Oliveira. Tudo minúsculo, coisa pra dez, quinze pessoas. São casas em que o dono cozinha ali pra um grupo de pessoas e pronto, não tem aquela rotatividade, menu de restaurante e coisa e tal, sabe? O botequim não reserva (tentamos ir duas vezes, mas a fila já estava enorme na porta) e a tasquinha reserva, por isso, se quiser ir, faça com antecedência. No dia, fiquei chateada por não conseguir ir em nenhum dos dois, mas depois pensei no tanto que comi suuuuper bem nos demais lugares e saí de Évora feliz da vida (e pesando um bocadinho mais, rs)!

Pra fechar este post com chave de ouro, nosso mapinha de Évora. Gente, sempre que começo um roteiro de viagem, já vou marcando os pontos de interesse no Google Maps, depois é só baixar o mapa da região e utilizar na função off line #ficaadica .